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30 janeiro, 2008

Fé e política

Luiz Alberto Gómez de Souza *

Fonte: Adital

(Pensando em meus mestres H. C. Lima Vaz e Ernani Maria Fiori)
Mounier, em Feu la chretienté, 1950, pouco antes de morrer, tantos anos atrás, dizia que não se pode ser monarquista ou socialista porque cristão. Ele era um cristão que, com os instrumentos de análise social, fez uma opção socialista, não um socialista cristão, o que seria instrumentalizar a Fé e reduzi-la a uma ideologia e, além disso, não saber usar as categorias próprias das ciências sociais.

Fundamentalismo, em jargão cristão, é integrismo, um salto direto e no vazio entre a Fé e a opção política ou técnica. Respeitemos as distinções de níveis, grande aquisição da modernidade, diante das velhas ou novas cristandades. Podemos ver renascer entre nós os ayatolás, com as melhores das intenções. Creio que Dante dizia que estas forram o chão dos infernos (ou do purgatório?).

Optemos ou rejeitemos valentemente projetos políticos e técnicos, sem nos esconder nos pretextos da profecia, que é um gesto muito menos comum do que se pensa e seria uma arrogância querer aplicá-lo à ligeira. Muito menos o martírio. Já falei disso em texto anterior. Jung Mo Sung nos está ajudando a pensar.

Respeito muito Cappio e tenho enorme carinho por ele. Mas não deveria utilizar sua condição de bispo para uma posição destas. Faça-o como cidadão e ribeirinho apaixonado. E o coro de emocionalidades e lágrimas que se levantou, deveria pensar um pouco mais nas distinções da teologia e da política. Não abastardemos profecia e martírio. Ato político é ato político e não pode se esconder atrás de uma batina ou dos gestos dos novos "bien pensants". Que falta faz Mounier!

Um dos apoiadores disse ontem que agora o governo resolveu dialogar! Que loucura, desde o começo Gilberto e outros, incansavelmente, estão tentando. Claro, com rigidezes e simplificações de um ministro do próprio governo. Mas seu trabalho paciente topou com a inflexibilidade de Cappio e de seus assessores. Agora, o médico e o irmão dizem que acabou e greve e os assessores dizem que não. Porque não se substituem a ele? É fácil empurrar o outro para a morte. Aliás, nos jejuns, em princípio, ninguém morre. Gandhi sempre parou um pouco antes, mas manteve sua aura.

Uma profecia que se reduziria aos ribeirinhos, que não são os donos do rio e ao próprio rio, esqueceria todos os outros pobres nordestinos. Houve muitos debates técnicos e sempre um projeto pode ser melhorado, mas um governo não pode suspender tudo pelo gesto extremado de alguém, seja bispo ou não. A Justiça, por maioria, não viu argumentos técnicos sérios para parar o projeto.

É hora de um debate sério sobre categorias teológicas e políticas. Tenho a impressão que há muita política escondida atrás de uma declarada fé. Faz alguns anos, eu dizia que nos debates entre fé e política, tínhamos freqüentemente uma política com maiúsculas, instrumentalizadora e uma Fé com minúsculas. Em nome desta última, desconfio de certos movimentos que tendem para um certo integrismo, que não é propriedade da direita.

Terminando com Mounier, seu último e aceso debate foi com os católicos progressistas de seu tempo, um dos quais, que depois esteve em tantas posições, se chamava Garaudy. Há que ler seus textos publicados postumamente com o título: "As certezas difíceis" (Oeuvres, vol. 4, Seuil, Paris, 1963, pp.11-284). Ali ele dizia: "Quando um monge começa a se agitar, a Igreja se pergunta com angústia se ele será um Lutero ou um São Francisco de Assis. Mas, se essa efervescência de fronteiras é eliminada, nos separamos talvez de Lutero e nos privamos de São Francisco" (139). Num texto antigo, retomado neste livro: "... esta exigência (sair da tentação de uma ideologia e reflexos de esquerda ou de direita) nos dá um parentesco com os homens livres, especialmente este verdadeiro povo, talvez minoritário, aquele que não aceitou o sonho burguês e que dará sua alma à civilização que ele mantém por uma liberdade de coração, ainda que desajeitado em se exprimir. Será ele que salvará as forças da esquerda: o mais humilde serviço que nós poderíamos fazer, não seria renunciar à lucidez, mas unir nossa clarividência à sua generosidade, desembaraçando-o e nos desembaraçando das ideologias mortais" (pg.75). E o título de outro artigo é significativo: "Para um certo sangue frio espiritual" (107). Ali está aquela declaração que coloquei na introdução de uma das partes de meu último livro: "O cristão não abandona o pobre, o socialista não abandona o proletário, ou eles abjuram seu nome" (fevereiro de 1950, dias antes de sua morte). Vejam que ele não mistura cristão e socialista, sendo ele próprio as duas coisas.



* Sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é Diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes

29 janeiro, 2008

Raul Seixas tinha razão: ser prefeito é perigoso.

Levantamento do sitio de notícias G1, dá conta de que 11 prefeitos e 3 vice, foram assassinados no mandato que se iniciou em janeiro de 2005.

No Maranhão foram três os prefeitos assassinados no período: Hilter Alves Costa, de Ribamar Fiquene, Raimundo Bartolomeu Santos, de Presidente Vargas e João Henrique Leocádio Borges da cidade de Buriti Bravo.

Para o presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, a função de prefeito é a mais arriscada de todos os gestores públicos.

28 janeiro, 2008

Zé Pereira: mais que trios e ritmos baianos

O Zé Pereira de Timon é famoso pelos trios elétricos e os ritmos musicais característicos do carnaval baiano.

Realizado anualmente na avenida Piauí, na semana que antecede ao carnaval, o Zé Pereira de Timon traz a estrutura de som, luzes, camarotes e blocos organizados nos moldes das grandes micaretas.

Mas a folia timonense extrapola os limites das cordas que separam quem pode e quem não pode pagar por um abadá.

Embora menos famosos, os tradicionais blocos de rua estão bem vivos e se fortalecem a cada ano.

Na tarde de domingo, os foliões se divertem e extravasam suas emoções ao som de velhas marchinhas carnavalescas.

A alegria contagia a gente de todas as idades.


Enquanto alguns protegem a identidade atrás de uma máscara....

...outros se exibem sem pudor, em plena avenida.

A manifestação popular espontânea, deixa claro que a estrutura mercadológica que envolve o Zé pereira, é incapaz de barrar a criatividade do povo.

24 janeiro, 2008

Sobre um brilhante expelidor de regras – e sobre vocês

Este artigo recebi pelo Crreio Caros Amigos
(http://carosamigos.terra.com.br/)

Muito bom.


por Roberto Manera

José Antônio Dias Lopes, que é uma pessoa que eu amo porque é um grande jornalista
e inventou o conhaque clandestino Elliot Ness, havia nos dito: “Descobri
em Veneza o maior escritor brasileiro”, e nós lhe perguntamos: “o que ele
já escreveu?” E ele nos respondeu: “ainda nada“.

Foi daí que a Veja e depois a Globo descobriram esse luminar – Diogo Mainardi
– e fizeram dele esse cagador de regras que o Brasil inteiro ouve, e às vezes
tristemente aplaude, todo santo dia.

Olha só o que o cara falou, no mesmo dia em que sua própria tevê exibia um
programa sobre como o futebol havia sido importante para a identidade de
um país da África: ele fez um trejeito veado com as sobrancelhas e disse
ao Lucas Mendes, com a non chalance dos que só pensam no que querem ser e
não no que são: “Futebol é irrelevante”.

Palmas! Palmas de vocês, que também acham que futebol é irrelevante, que
ganhar é sempre bom, até roubando; que acham que melhor é bombardear o Iraque,
e que toda a estrada, para vocês e o repulsivo ser que todo dia lhes fala,
vai dar no mar. Vocês merecem!

Merecem o Diogo Mainardi; o Fernando Henrique, que lhes roubou o pouco que
tinham, ao vender por preços ínfimos empresas que eram de todo o País; os
algozes meigos que lhes dizem, todo dia, nessa merda que vocês enganadamente
chamam “mídia”, que o Chávez – o da Venezuela –, que felizmente decidiu eliminar
o golpismo fechando aquela latrina espúria que defendia o golpe contra o
povo, é um “caudilho”. Eu posso lhes dizer, como repórter: conheci a Venezuela
nos anos 1960, quando todo aquele país não passava de um terreiro das petrolíferas
americanas. Era o inferno. Acreditem se quiserem. Ou prefiram a Seleções
do Reader’s Digest. Vocês já notaram que são livres? Pois é: exercitem essa
liberdade.

Para quem escolher o american way de exercitar a liberdade, eu digo: vão
se foder. E – vou lhes dizer – vocês vão mesmo. Porque o pensamento – sabiam?
– ainda existe. O povo é superior a toda essa merda que vocês aprenderam
nessa sua pérfida “escola de vida” dos homenzinhos de pau pequeno dos anos
cinqüenta, que saíram pelo mundo tentando afirmar sua masculinidade – e que
eu acho que forneceram o modelo que o Mainardi escolheu para sua vida brilhante
e inútil.

Mas isso é o que é irrelevante – é pouco. O que é relevante e existe, de
verdade, são o pensamento e o anseio dos povos. E nós somos muitos, percebem?
Muitos. Nós somos os Garabombos de Manuel Scorza; os Macaulés de Alejo Carpentier
e os Bolívares de Chávez. Vão ler e entenderão.
E muitos de nós – invencíveis, porque não temos essas medidas que a Globo,
a Veja e os jornais lhes (nos) impõem – somos quem haverá de fazer o amanhã.
Alinhem-se enquanto há tempo.


Roberto Manera é jornalista.