23 outubro, 2008

Sardinha dois irmãos



Teresina 18:30h do dia 21 de outubro do ano cristão de 2008. Estou sentado num ponto de ônibus no movimentado bairro tabuleta da capital piauiense. Meu destino é Timon no Maranhão, cidade onde moro e que faz parte da região chamada Grande Teresina. Timon é a maior cidade da região. Somos 150 mil habitantes. As dezenas de pessoas que como eu estão à espera de uma condução, parecem muito agoniadas. Deve ser o calorão de outubro. Nós nunca nos acostumamos com o período de BR-O-BRÓ. Aliás, o calorão é assunto para iniciar qualquer conversa com qualquer estranho. Sempre funciona. BR-O-BRÓ para quem não sabe, é como chamamos o período mais quente do ano. Chamamos assim porque esse período vai de setembro a dezembro, meses cujo nome têm a terminação BRO. Estou como se diz: com um olho no peixe e outro no gato. Vejo os ônibus que passam conferindo o itinerário, ao mesmo tempo leio um livro, mas não deixo de notar as pessoas que sentam e levantam ao meu lado no banco quente de cimento. Acho um fenômeno admirável a grande movimentação de pessoas neste horário. Quase ninguém “esquenta o banco”. Se é que alguma coisa ainda pode esquentar mais por aqui. Lá vem um dois irmãos. Dois irmãos é o nome da única empresa que faz transporte coletivo para o meu destino. Mas este não é o meu ônibus. Eu quero Conjunto Boa Vista, de preferência via parque. Dou graças a Deus de não ter que embarcar nessa lata de sardinha que vai para a rua Cem. Tenho dó desse povo que vai aí. Além do calorão esse empurra empurra infeliz. O ônibus está lotado de porta-a-porta, não cabe mais ninguém há muito tempo. Mesmo assim, dezenas de pessoas conseguirão entrar antes que ele chegue ao seu destino. Os ônibus que passam aqui para outros bairros de Teresina estão cheios de gente nesse horário. Somente cheios. Mas os que vão pra Timon estão atopetados. Vendo essa cena e a diferença da lotação do transporte público nas linhas de Teresina e nas linhas de Timon, lembrei-me da declaração da prefeita Socorro Waquim, em plena campanha para sua reeleição, afirmando que nossa cidade não comporta outra empresa de ônibus. É provável que a prefeita tenha se enganado e lido na tv, o papel em que estava escrito o discurso do empresário Osvaldo Mendes, dono da Dois Irmãos. Mas eu acho mesmo que ela nuca andou de ônibus coletivo. Só uma pessoa que não presencia a humilhação que é o transporte coletivo de Timon pode afirmar tamanha sandice. Agora, com um olho no gato, outro no peixe e pensando no papel e nos compromissos dos gestores públicos que elegemos, já nem sinto o calor que há pouco me atormentava. Então foi se embora a lata de sardinha com destino à rua Cem. Então volto a ler meu livro. Fico tão empolgado na leitura que quando vi outro ônibus de Timon ele já ia embora. Droga! Deve ter sido o meu. Não adianta me aborrecer. Ler é o melhor remédio. Só não posso esquecer a estratégia: um olho no peixe e outro no gato. Depois de um tempinho lá vem um outro da linha Conjunto Boa Vista. Oba! É o meu. Pra variar, vem lotado também. Só não tanto quanto o da rua Cem. Mesmo assim vejo uma mulher grávida, uma outra da terceira idade e um homem idoso viajando em pé por falto de assento. As pessoas estão cansadas. Seus semblantes denunciam. Quando aparece uma brecha eu passo rapidamente pela catraca e procuro um lugarzinho espremido ali no corredor. E sigo viajem tentando me equilibrar nesse balançar sem fim. A cada brecada, lá vem o povo caindo uns por cima dos outros. Como é difícil essa vida de passageiro. Bem que eu queria ser tratado como cliente. É! Cliente tem bom tratamento: “Bom dia Senhor. Posso ajudá-lo? Aceita um cafezinho?” Passageiro não: “Paraí motorista que vai descer um pela frente!”. O camarada desse pela porta da frente, que é de entrada, porque é impossível passar a catraca e chegar à porta de saída. Para a empresa quanto pior melhor. Quanto mais gente amontoada, mais lucro. Concorrência? Essa palavra não existe no vocabulário dos empresários. Já não posso nem ler meu livro. Mal me mantenho em pé. Quando o ônibus vai vagando fico próximo de duas jovens mulheres que conversam. Não tem como não ouvir. Falam dos ex-maridos. Lançam seus argumentos favoráveis à nova vida de quem é recém separada. E eu de butuca ligada, escutando tudo. Tem uma que afirma está sendeira, mas logo recua explicando: "sendeira não! Sendeira é só enquanto não fica com outra pessoa". E rir. Eu me divirto apesar de tudo. Claro que seria bem mais divertido se eu pudesse viajar sentado. Mas, ainda tenho fé que um dia nós timonenses teremos outra opção de transporte coletivo, além da lata de sardinha dois irmãos.. Mas ainda tenho fé que um dia nós timonenses teremos outra opção de transporte coletivo, além da lata de sardinha dois irmãos.
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